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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

FILOMENA FRANCISCO JOSÉ DOS SANTOS. "A MINHA MÃE"!




“Em memória de Filomena Francisco José dos Santos

Texto reeditado aos 15/02/2016”
Minha mãe, naquele dia voltou sem nada.
Não tinha vendido nada. Parece que os clientes adivinharam e resolveram participar na maldade.
Sabias que é maldade não comprares nada do negócio do pobre?
Parecia que a pouca sorte se multiplicará, e todos resolveram nos castigar. O negócio da minha mãe era pesado em quilos mas levíssimo no preço.
Era de fácil aquisição e tornava-se humilhante por vezes.
Eu e a mãe vendíamos garrafas vazias, e uma das muitas responsabilidades que a mãe me incumbiu naquele grande negócio, era tratar da área logística.

Eu transportava na cabeça o saco com mais de cem (100) garrafas de várias qualidades, e tinha de estar sempre em forma. No meu currículo descrevia-se a performance ideal para aquela profissão. Tinha as vantagens para admissão imediata para aquela vaga, pois a mãe não segmentava-se nas novas barreiras nacionais para pobre não “bumbar” os famosos requisitos profissionais como: “ inglês fluente, falado e escrito ou os famosos mil e cem (1100) anos de experiência profissional comprovada”.
Para seres admitido pela minha mãe, tinhas de ser angolano, saber andar, e de preferência correr, mas correr bem. Se possível correr mais que o compadre “Saiovo”. Tinhas também de agir com rapidez e perspicácia, características raras, só vistas nos currículos e nas acções dos muitos mádies do Kumbú aqui na nossa praça.
Nós zungueiros tínhamos de às ter, entenda-se os requisitos da corrida, pois os fiscais eram dotados em apropriações ilícitas, e nos tinham como principais alvos.
A mãe não me maltratava, afinal onde arranjaria ela força para tal, pois apesar de ela ser ainda muito jovem, aparentava a minha avó que nunca conheci.
Eu transportava às garrafas na cabeça apesar da minha tenra idade, assim como o povo transporta a luxaria e a falsidade dos incrédulos banhados da hipocrisia daqueles que nada querem saber em troca da fome e do sofrimento diário.
Quanto a venda das garrafas, naquele dia não pude fazê-lo, a mãe foi sozinha vender aquelas garrafas todas, às revendedoras de petróleo ou as cazucuteiras do óleo do motor e da gasolina lá na então praça dos sonhos, o Roque Santeiro.
A mãe me deixou em casa aos cuidados da minha prima Mãezinha que aos catorze anos já transportava quarenta de malandragem, e dela para mim os cuidados foram só de boca. Ela gozou comigo naquele dia, dizendo-me: “- Vais morrer. Isto é fome. Andas a te alimentar de sonhos. Saco vazio não fica em pé. Agora vais dar o caldo, vais ver!”.
Em seguida ela me abandonou, minutos depois, da mãe sair, pois apareceu um dos muitos amigos dela, que não tinham hora, e foram, para onde não sei, mas de certeza “um dos dois havia de ficar sem fome”- disse-me ela na despedida.
Eu já estava nas últimas a fome me apertava, os órgãos internos do meu corpo reclamavam, manifestando dores internas. Eu já tinha a doença da moda na época, e era um dos poucos no mundo com cólera mas sem os sintomas pois não tinha nada no organismo para exteriorizar. Ainda pensei no meu primo N´guexi que sempre me tentou moralizar, alegando que era só uma questão de calma e paciência, pois em breve as coisas mudariam. Grande primo. Mas a sorte também lhe foi madrasta. Muito estudo e nada. Era licenciado, mestrado e doutorado em cazucutas, mas mesmo assim nada! Até a dama já lhe abandonou, sem sequer lhe dizer basta, foi viver com um outro homem, assim mesmo tipo nada. Coragem, precisa ele também pensei.
A mãe regressou finalmente. Percebi pelo ruído do portão de chapa ao abrir-se. Após a entrada, ela dirigiu-se até ao local onde me encontrava e olhou para mim, e eu para ela, seu olhar vencia-me pois ainda tinha lágrimas. Eu estava falido até mesmo em lágrimas.
Queria a mãe levar-me ao hospital. Percebi pelos gritos de desespero que ela proferia, como se de um discurso politico se trata-se, mas o autocarro para me transportar também paga-se, e lá no nosso bairro 78, telefone era ainda um sonho. Ainda não tínhamos a antena, e sem o sinal, os telefones não funcionam, diziam os entendidos na matéria.
A mãe lastimava. No seu rosto lia-se a mensagem de fracasso como se de um soldado se trata-se, no regresso de uma delicada missão. E não era? (…)
Mais nada! Era o fim, o meu fim!
A mãe pegou-me ao colo gritando e lamentando, eu não sentia nada, ainda belisquei-lhe para fazer silêncio. Convidei-lhe a ver comigo alguém que já a muito ouvia falar, e finalmente estava presente, junto a mim.
Sim, pude conhecer finalmente o famoso diabo. Estava nu a assar sardinha com uma faca no bolso. A mãe parece que não entendeu o que lhe falei, e aumentou o delírio. Até achei graça, mas o sorriso era já interno. E como a mãe já não me ouvia, concentrei-me naqueles que comigo haviam de conviver, dai em diante.
Falei com o senhor diabo, perguntei-lhe do porque do meu fim nas suas malhas. Ele não respondeu prontamente, mas deu-me um panfleto onde lia-se:
- “Pobreza também é pecado, punido com inferno! O sofrimento não provém do inferno, é autoria dos pobres”.
Percebi que terminava assim a minha pouca sorte. No panfleto lia-se também que às pessoas que acabavam mortas, como eu, certamente gozariam do poder de disseminar a maldade pela terra, mas só mesmo sobre os outros pobres. Pensei (…)
Agora em diante sim, eu também fiquei poderoso, e poderei propor mais sofrimento na terra (…)
Ai, a minha mãe!

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