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quarta-feira, 13 de junho de 2018

ACTOS DE SOLIDARIEDADE OU CAUSAS QUE NOS HUMILHAM


Por: Bento José dos Santos
Quando a expressão "Muito Obrigado" é confundida com a imposição de "Receba Isto Porque És Um Necessitado" a vergonha de quem aparece nas vestes de promotor da solidariedade passa a ser também um reflexo da hipocrisia que hoje parece a todos suplantar. E como tal, importa citar Mahatma Gandhi:
- "Sempre foi um mistério para mim como os homens podem sentir-se honrados pela humilhação de seus semelhantes".

É de pouca sorte, e talvez seja de índole menos honrosa inúmeras situações que assistimos e que acabam por nos pôr em cheque, quanto ao nosso valor humano, perante a ausência do respeito e da validade que devemos dar aos nossos semelhantes.
Em muitas ocasiões, as imagens e os textos que expõe as condições de precariedade ,e muitas vezes de extrema pobreza que vivem inúmeras pessoas espalhadas pelo mundo, antes deviam servir para reflectirmos sobre o facto de sermos supostamente os seres vivos mais dotados para fazer uso dos níveis de inteligência cognitiva. Lamentavelmente a nossa inteligência parece que também nos categoriza como os seres vivos que cometemos as maiores atrocidades contra os nossos próprios semelhantes.

As imagens de crianças famintas, anémicas, desprovidas de cuidados básicos de higiene; a imagem de pessoas idosas com olhar distante, abandonadas cada uma a sua sorte na imensidão das ruas; a imagem de milhares de pessoas designadas como emigrantes que lotam os navios sem rumo e vão dar a Europa suplicando a clemência dos governos para que não voltem aos seus países; a imagem da desolação criada pela fome, (...) Tudo isto nos faz pensar, até que ponto somos ou podemos ser realmente solidários.
Se em determinados momentos vimos alguns meios de Comunicação Social a difundirem noticias sobre o estado precário que vivem inúmeras pessoas no mundo, não é menos verdade que muitos "tidos como promotores da Cidadania não fazem uma única acção sem antes terem consigo a presença da imprensa. Podem até faltar os "necessitados" mas a imprensa é indispensável!

Com tais condicionantes, se constata a promoção da própria humilhação a que são submetidas as pessoas que carecem de ajuda, quando tem de dispor a sua imagem pela justificativa condicionante de estarem a ser ajudados pela "solidariedade".

Diariamente, vimos as câmaras e os microfones da imprensa a propagarem a imagem do então suposto "salvador" o grande "benemérito" que jocosamente contrasta com a pobreza e a relevância do seu acto.

O discurso da promoção de quem ajuda, ou seja o acto de supostamente só quererem que mais pessoas sigam o seu exemplo, tem sido o disfarce das realidades inconfessas para usarem o sofrimento dos outros como forma de trampolins para o alcance dos objectivos inconfessos.
Será troca dupla?
Ou seja: Com uma mão dá-se e com a outra recebe?!

Será que a onipresença da vontade de sermos sempre mais importantes que os outros, sermos os seres aparentemente superiores, nos dá o direito de expormos e submetermos o nosso poder de poder ajudar mas sem antes salvaguardarmos a prévia condição de que "- vocês que recebem a ajuda aceitarem antes de mais serem humilhados?"...
Não seria uma medida providência sabermos que, quando ajudamos com vontade própria, quando fazemos o bem com o coração limpo, não esperamos reciprocidade e tão-pouco esperamos o reconhecimento pelos holofotes dos meios de Comunicação Social?!

Porém, andamos assim a oficializar a humilhação, exibindo o sofrimento daqueles que necessitam, quando o correcto seria previamente as instituições de públicas de direito cumprirem com os seus "deveres" e as suas "obrigações" institucionais, deixarem as justificativas dos ditos esforços, que muitas vezes acaba por servir de base para andarmos a mendigar para receber àquilo que nos é ou seria dado por direito.
Confundir actos de benemerência ou de solidariedade com estratégias de Relações Públicas é uma contradição ética para quem assim procede, pois lamentavelmente com tais acções as causas que muitas vezes dizem defender, acabam por humilhar os supostos beneficiários. E aqui nos importa mais uma vez subsidiarmo-nos em citar Gandhi...

- "O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam de humilhar os outros para se sentirem fortes".

É a triste realidade. Infelizmente!

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